domingo, 19 de junho de 2016



RENATA CARVALHO


O AMOR PELO SAMBA, A PAIXÃO PELO FORRÓ E UMA VIDA QUE SE CONFUNDE COM A ARTE DE DANÇAR







EDUARDO BASTOS
KIKO MONTEIRO



                                                            Não procuro a medida certa, o caminho certo, o comportamento certo, a vida certa. A vida está além disso. (Renata Carvalho)


"Cordão"


O samba que aprendi

Não nasci em roda de samba, não sou filha de batuqueiro e a cor da minha pele não é negra. Nasci de pele branca, perto da fogueira de São de João e em meio ao pagode russo de Seu Luiz. Mas sou branca, preta, mulata, mestiça, mistura. Sou do xaxado, do contato, do improviso, do samba.

Sou do samba da casa de minha avó, girando como porta-bandeira no quintal das mangueiras com uma toalha enrolada na haste da vassoura e uma coroa dourada na cabeça. Essa é uma lembrança muito forte. Minha avó dançava comigo e dizia que queria ter sido uma porta-bandeira. O vínculo dela era com paixões. Pelo carnaval, pela alegria, pelo samba, pela brincadeira e na sua casa, lá num canto nordestino do Brasil, cabia tudo isso.

Venho do samba sambado no meu quarto. Atenta ao ritmo, brincava com ele ou imaginava minha comissão de frente. Do samba sambado pela casa no dia a dia, nos dias de faxina, dançando com minha mãe e cantando com ela, nos dias de tristeza, de alegria ou de cozinha trabalhando para o jantar de aniversário. Do samba do violão de Antero e da caixa de madeira colorida da amiga mais Flor, cantados na varanda na minha melhor casa de praia do mundo. Aqui, minha mãe assume a herança de minha avó e invoca a dança. Comida boa, música alta, samba na cozinha e no fim da tarde descansa o dia com sua voz tímida e docemente forte.

Ela encheu nossa casa de Chico e Bethânia, Paulinho, Martinho, Vinicius e Zeca Pagodinho, de Noel, Candeia e Cartola, Beth Carvalho, João Nogueira, Dorival e Dona Ivone.

Sou daquele que faz chorar quando canta a passagem da Portela na avenida, do que faz lembrar do melhor amor que ‘chega iluminando meus caminhos tão sem vida’, do que carrega a alegria do Marinheiro no balanço do mar e faz dos pés inteiramente da terra. Sou desse samba rasteiro e encantado e do samba elegantemente malandreado, do samba das escolas que nunca fui, do miudinho, do partido e canção.

Sou dos que vem de longe, de perto, de todos que me iluminam. Com eles sou mais forte.
Não lembro o primeiro samba que ouvi, nem o primeiro que dancei, mas sei que não era preciso muito para o samba chegar e contaminar, sua presença sempre foi constante e necessária, porque é felicidade incomensurável, pensamento em ventura, sorriso bom, braços abertos e pés em voo.

Um universo vivido nas canções que escutei, construído poeticamente a cada batuque porque é com ele que o coração vibra e os braços embalam cada história como se fosse minha, como se eu fosse uma das moças do samba pra elas e o batuque na cozinha fosse na minha.

As minhas lembranças estão no meu corpo e em como danço meu samba. Estão nos pés fortes do nordeste, na poesia lida pelas mãos, na postura encontrada do malandro, no olhar de quem olha o melhor presente, no sorriso e no coração, aquele que sente, em cada um que escuta e, inevitavelmente, dança.

Eu sei que sou, que faz parte e é pedaço de mim. Sou do samba, dos pés ao coração.

(Texto escrito por Renata e que é lido no início do espetáculo "Cordão")




"ESSA AQUI É A PROFESSORA RENATA..."

Foi o professor e amigo Irineu Roberto de Oliveira quem me falou pela primeira vez sobre a professora Renata Carvalho. Estávamos no sítio de propriedade dele e de seus irmãos, e Irineu, enquanto eu ajudava seu irmão Alberto - que estava em cima do telhado trocando uma bica -, lembrou de algo que queria me dizer. Jackson do Pandeiro tinha acabado de cantar seus sucessos e Chico Buarque começava a entoar Carcará, quando o amigo se aproximou de mim.

Irineu: Eduardo, você tem que conhecer uma pessoa, uma professora que começou a trabalhar agora lá no colégio onde ensino, lá no Silvio Romero.

Eduardo: Ela leciona o quê? E de onde ela é?

Irineu: Ela é de Aracaju, ensina Arte e foi aprovada no último concurso. É uma mulher inteligente demais, está cursando doutorado em Portugal e gosta muito de cultura, de livros e dessas músicas que a gente ouve. Você precisa conhecer Renata!


Tive o privilégio de conhecer Renata através do amigo Irineu mesmo, numa tarde em que fui à subsede do Sintese aqui de Lagarto confirmar uma viagem. Na ocasião, o amigo me apresentou sua colega de trabalho, e foi quando me enchi de curiosidade e fiquei sabendo pela própria Renata que ela leciona Arte no Colégio Estadual Silvio Romero e estuda Doutorado em Dança em Portugal. Fiquei sabendo ainda que sua opção em ir estudar no além-mar, na terra do fado, deve-se ao fato de ela sempre sonhar viver experiências novas, estabelecendo contatos com outras culturas e povos. 

Nesse bate-papo com a professora Renata Carvalho, tomei conhecimento que ela fora convidada e estava se preparando para fazer uma apresentação de dança na próxima edição do Sarau da Caixa D’água, dia 27 de fevereiro de 2016. Como ficara curioso, na tarde em que a professora iria se apresentar ocupei um banco defronte do palco do Sarau, e fiquei curtindo as apresentações musicais, enquanto aguardava Renata entrar em cena. 

E ela foi chamada mesmo ao palco, e foi fantástico! Foi mágico e lindo ver a performance da professora naquele espaço! Ela trouxe a alma dos grandes sambistas do nosso país para debaixo da caixa d’água de Lagarto, e deixou-se embalar pela nata dos compositores, como Candeia (Preciso me encontrar), Vinícius de Moraes (Samba da benção), Dorival Caymmi (O samba da minha terra), João da Bahia (Batuque na cozinha), João Nogueira e Paulo César Pinheiro (Guerreira) e Dorival Caymmi (Morena Rosa). Ao pedir licença ao Rock e à MPB, e ao delimitar seu espaço no palco, Renata incorporou e expressou - com seus gingados, requebros e rebolados - a essência de cada melodia que a inspirava e dava sentido ao seu bailado. 

Foram minutos que podiam se prolongar por horas aqueles em que Renata Carvalho encantou e hipnotizou a todos (à boquinha da noite de um sábado em Lagarto). Renata rodou e rodopiou, até vestir a saia no palco - sem perder a elegância nem o rebolado por um segundo sequer. Depois tomou de sua panela, e finalmente de sua bandeira - e foi ai que virou porta-bandeira, defensora do samba que a transformou por uma noite na musa do Sarau da Caixa D’água.

Antes de Renata concluir sua apresentação àquela noite no Sarau da Caixa D'Água, aconteceu algo inusitado. A professora percebeu o entusiasmo e a empolgação do público com sua performance no palco, continua dançando, mas resolveu convidar pessoas da plateia para acompanhá-la. O primeiro a ser chamado para fazer-lhe companhia no palco fui eu. Tomei aquilo como surpresa, me fingi de desentendido, comuniquei através de gesto que não levava o menor jeito para a dança, e senti meu coração tranquilizar quando outras pessoas aceitaram com alegria o chamamento de Renata. 

No outro dia, assim que acordei, tive uma ideia e tratei de entrar em contato com meu amigo Irineu, através de uma rede social: 

Eu: Você viu como foi bonita a apresentação de Renata lá no Sarau? 

Irineu: Vi sim! Mas você passou vergonha, "bateu fofo"! Como é que Renata chama você para dançar e você faz uma desfeita daquela? 

Eu: Olhe, seu cabra-safado, preste atenção numa coisa: você não sabe que eu não levo o menor jeito para a dança? Como é que eu ia subir naquele palco para dançar logo com Renata, e ainda mais com todo aquele público olhando? 

Irineu: kkkkkkkk 

Eu: Sim, você viu Renata me chamar ao palco, não foi? Mas onde era mesmo que você estava? 

Irineu: kkkk. E você acha que eu sou besta como você, que eu ia ficar rodando a cara ali perto do palco, correndo o risco de Renata me ver e me chamar para dançar? Eu fui com o meu cachorro e aproveitei para ficar atrás do público, longe das vistas dela! Assim eu me livrei de ser visto por Renata e de ser chamado para dançar no meio daquele povaréu.

Eu: Seu filho duma mãe! Pois olhe, eu vou procurar compensar aquele vexame que dei ontem à noite. Estava aqui agora pensando e cheguei à conclusão que seria interessante eu produzir um trabalho escrito sobre a dança e o trabalho da professora Renata. Seria uma forma de eu me desculpar com Renata e ainda render-lhe uma homenagem. E por falar nisso, Irineu, eu não tenho como falar com a professora Renata. Você poderia me passar o contato dela?

Renata me atendeu com a educação que lhe peculiar. Me identifiquei, parabenizei-a pela apresentação da noite anterior e lhe fiz um pedido: "Professora, será que você podia me passar os títulos das músicas e os nomes dos autores das canções que você usou ontem em sua apresentação?" 

Nesse primeiro contato, eu disse à professora Renata que intencionava apenas escrever um pequeno texto no Facebook sobre a performance dela no Sarau. Num segundo momento, revelei minha real intenção: "Renata, na verdade o que eu queria mesmo era produzir um texto de maior fôlego sobre seu trabalho com a dança para publicá-lo no meu blog." 

Para fazer essa entrevista com a professora Renata, convidei e contei com a colaboração luxuosa do meu amigo Kiko Monteiro, que renunciou a uma tarde inteira de folga do trabalho dele lá no Portal Lagartense para estar ao meu lado nessa agradável tarefa de ouvir a professora Renata Carvalho.

ENTREVISTA


QUEM É RENATA CARVALHO?

(Hesitação) Essa é uma pergunta que não se faz a uma geminiana (muitos risos). Bem, eu sou muito geminiana (que minha irmã não escute isso), por vezes contraditória em decisões que preciso tomar, mas insistente em tudo aquilo que quero e acredito de verdade. Sou pouco paciente, porque quero as coisas para ontem, mas consigo achar paciência e força em tudo aquilo que desejo. Tenho o pavio um pouco curto, sou oscilante emocionalmente (risos). 

Sou movida pelo coração, pelo que me toca verdadeiramente. Gosto do bom humor e pitadas de sarcasmo (risos). Me questiono muito. Dizem que sou meio fria ou pouco dada a demonstrações de afeto. Mas isso é para quem me conhece pouco. Acho que meu afeto está mais relacionado às minhas atitudes do que estar com muitos beijos ou abraços. 

Adoro filmes de época, cinco e meia da tarde é a hora mais bonita do dia, e falo muito, muito mesmo. Gosto de dar risada, sou meio besta para rir. 

Difícil me expor assim (risos).

RENATA, FALE UM POUCO SOBRE SUA INFÂNCIA

A dança desde sempre
Nasci em Aracaju. Minha infância foi vivida basicamente na casa de minha avó Nadir. É de onde tenho as lembranças mais fortes... lembro primeiramente do forró na sala dela e de tantos encontros... Ela gostava de juntar as pessoas... Tenho lembrança da biblioteca do meu avô, Alberto Carvalho, onde eu fingia ser professora dele usando a espada de He-Man. Para mim, a música desse período é Pagode Russo, de Luiz Gonzaga. Foi uma infância muito dançante e muito tranquila também. Eu não era de aprontar tanto, eu gostava mais de dançar, brincar na rua ou sozinha de Barbie - sim, porque eu tinha vergonha de fazer as falas para outras crianças ouvirem (risos), de ser professora - carteiras arrumadas, aulas de português e mais tarde de inglês também (risos).






A mesa

Era dia de mudança e coisas no lugar
Era dia de sol, vento forte e luz bonita na janela
Dança com pai, cheiro de mãe e camomila
Era dia de repente
De repente o susto, o corte, o vermelho. A dor.
A dor contida de choro, choro sem força de dor
Dia de urgência e felicidade sem pressa
De poucas palavras e mais ternura
Há de se saber que ela chega de repente
Canta em cada canto
E arrasta qualquer dor
Porque a dor do corte é menor do que o afeto que o corte da dor traz
Porque a dor do corte vem e vai
O afeto não.

31/05/13

ESSA SUA INFLUÊNCIA MUSICAL VEIO DE ONDE?

Veio de minha mãe, Ana Miriam, que é uma pessoa muito musical e tem uma voz linda, especialmente quando canta “O Meu Amor”, de Chico Buarque. Apesar de ter tido muita música na casa dos meus avós, lembro mais de meu avô com os livros e as conversas com os escritores que iam na casa dele, e eu ouvia tudo aquilo. Só que eu era muito nova - tinha treze, catorze anos – e foi quando comecei a prestar atenção em todo esse ambiente. Meu avô era apaixonado também pelo cinema, mas a música em mim é muito forte com minha mãe. Desde a infância eu escuto Chico, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Cartola, Noel Rosa... Nós fazíamos muita coisa juntas com trilha sonora, dançávamos pela casa em dias de faxina, enquanto cozinhava ou ela mesmo cantava pela casa e eu chegava junto para cantar com ela. 

SUA VIDA ESTUDANTIL FOI TODA EM ARACAJU

O futebol deu medalhas a Renata
Até a faculdade, sim. Eu estudei no CCPA, e no ensino fundamental fui para o Colégio São Paulo, onde concluí o Ensino Médio. Em seguida, veio a Universidade Federal de Sergipe. Primeiramente eu fiz vestibular para Letras - Português/Inglês -, mas fiquei em quarto excedente; depois fui para Artes Visuais. Cursei dois anos e assim que apareceu Licenciatura em Dança, tentei e passei. Sou da primeira turma. Mas eu já tinha relação com dança antes de frequentar o curso. Eu concluí Dança, fiz especialização em Arte-Educação, depois o mestrado em Dança... 


E AÍ VEIO A IDEIA DE IR PARA PORTUGAL

Duas coisas muito fortes me motivaram a ir para Portugal. Uma questão pessoal, vontade de conhecer mesmo e a necessidade de dar continuidade à minha formação. Terminei a Licenciatura e a Especialização, mas em Aracaju não temos o Mestrado em Dança, acabava na especialização em Arte e Educação, que era a área próxima daquilo que eu queria. Outra opção era eu ir estudar em Salvador, mas eu nem cheguei a tentar, porque não resolvia um desejo meu, que era conhecer a Europa. 

Ensaio para o 4º Colectivo
Em 2009 encontrei o Mestrado em Performance Artística – Dança, na Faculdade de Motricidade Humana (Universidade de Lisboa) e nela uma estrutura curricular que me interessava e atendia o que eu queria. Eu sempre fui estimulada a estudar fora, mas não tinha tanta coragem. No entanto, em meados de 2010 essa ideia começa a se fortalecer e em 2011 me candidatei ao Mestrado e fui aprovada. 







Lá fiz parte do 4º Colectivo – Grupo de Pesquisa e Criação em Dança da Faculdade de Motricidade Humana, sob a direção da Professora Dra. Ana Macara. Foram quase 2 anos, com apresentações em Lisboa e Espanha. Foi engrandecedor… em Lisboa também apresentei meus solos.

QUAL É A SENSAÇÃO DE CHEGAR EM PORTUGAL?

Estações 2
Eu não conhecia ninguém lá. Quando eu fui tinha um casal à minha espera, que por acaso é de Aracaju. Minha dentista que me colocou em contato com Luciana, parente dela, mas eu não a conhecia pessoalmente. Eles foram meus anjos da guarda. Morei com eles durante cinco meses. Chegar em Portugal... comecei a pensar e escrever sobre isso... é como chegar em casa, é uma sensação de conforto muito grande. Lisboa é uma cidade extremamente aconchegante. Ela é uma cidade grande, mas ao mesmo tempo tem um ar de cidade pequena: ruas estreitas, a pastelaria que se frequenta regularmente onde as pessoas se conhecem, o ritual de beber o café juntos... 

Existem choques culturais entre brasileiros e portugueses, é natural - e isso é sentido nas ruas, em relações mais próximas -, mas Lisboa traz essa sensação de acolhimento, a sensação que eu tive foi de realmente ter chegado em casa. 

TEM MESMO ESSE CHOQUE, NÃO É?

Tem. Tem, mas é superado por conta do próprio tempo. O choque que eu mais senti foi em relação ao comportamento, de sermos abertos demais, de querermos conversar muito, contarmos coisas, e eles serem mais reservados, de não terem essa convivência mais regular na casa do outro... Com isso, a gente aprende a se segurar mais um pouco, a não ser tão aberto, a ter cuidado com o que vai falar e, principalmente, a ser menos invasivo. Tem as expressões também, porque algumas palavras têm outros significados e outras nunca vi por aqui. 

FALE UM POUCO SOBRE ISSO

A celebração do forró coincide com seu aniversário
Tem o “fixe” usado sozinho mas você logo reconheceu através da fala de sua avó… (Dia desse eu falava com Renata numa rede social e ela me perguntou se eu estava "fixe". Ri muito da pergunta, principalmente por me ser feita por uma doutoranda, mas eu disse à professora que conhecia a palavra dentro de uma expressão, pois cresci ouvindo-a da boca de meu avô e de minha avó. Sempre que eu estava na companhia do meu avô e encontrávamos um dos seus amigos, meu velho tascava logo a pergunta: "E aí, rapaz, você tá forte e fixe?"). 

A expressão “forte e fixe que nem maxixe” eu conhecia, mas nunca vinculei a “estar bem” (risos).

Em Portugal tem o giro para o homem e gira para mulher, quando se quer referir que ele é bonito ou que ela é bonita; tem o esferovite que é o isopor; x-acto que é o estilete; lixívia que é nossa água sanitária; casa de banho, quando eles querem se referir a banheiro; cueca é cueca masculina e feminina; cheguei a ouvir a fila ser chamada de bicha, mas pouco. 

Muita coisa muda no material de arquitetura, e minha irmã que está estudando lá teve que reaprender todos os nomes de tudo que ela usava, de todo o material, instrumentos e tipos de papeis.

QUAL A BASE MUSICAL QUE VOCÊ MAIS VÊ (ESTUDA) LÁ NA UNIVERSIDADE?

Dentro do próprio curso a gente não tem uma relação tão direta com a música. Existe nas criações, dentro das disciplinas Composição Coreográfica ou Novas Tecnologias em Dança. Nas nossas criações, depende do que você quer com o seu trabalho, e dentro dessa trilha sonora, ou “banda sonora”, como se diz lá, pode ter sons, ruídos, não necessariamente só o que reconhecemos como música. Ou pode não usar trilha nenhuma. Em um dos meus solos, criado para o mestrado, aconteceu isso, de não ter trilha ou sons; só um poema sussurrado.

O QUE VOCÊ TRARÁ DE LÁ DE PORTUGAL E QUE PODERÁ CONTRIBUIR PARA SUA ATUAÇÃO ENQUANTO PROFESSORA?

Fotografia
Admirei muitas coisas lá e uma delas é a organização e seriedade para fazer os trabalhos. Existe uma preocupação grande com a estrutura dos lugares de apresentação e sua logística. Isso é uma das coisas que eu gosto lá. E também ouvir o outro. Eu percebi dentro da Universidade e dentro dos próprios eventos dos quais eu participei - dançando ou como espectadora -, que existe, além de uma boa logística e organização, uma preocupação com quem vai dançar. Não era necessário exigir isso, porque do outro lado já se tinha essa atitude. Muitas vezes temos uma estrutura ruim para nos apresentarmos, em vários aspectos, e isso permanece porque, ainda assim, vamos lá e cedemos. E muitas vezes cedemos porque amamos o que fazemos. Aqui, infelizmente, a arte e os artistas, ainda tem que lidar com esse tipo de coisa.

E dentro da Faculdade eu me senti muito à vontade, no sentido de fazer parte e ser respeitada, como alguém que estava ali não só para fazer uma pesquisa. Vai além disso. Senti-me levada para perto. A apresentação de minha tese de Mestrado foi enriquecedora, porque eu percebi a banca interessada em discutir o assunto, fazer proposições, sem levar nada para o pessoal. 

Tudo isso me marcou. E fortaleceu em mim o inconformismo diante de como as coisas são feitas por aqui, o desejo de continuar ativa diante disso e, que sim, as coisas são possíveis.

QUAL FOI O TEMA DA SUA TESE DE MESTRADO?

Foi a relação da Dança Contemporânea com a Dança Popular. No caso, eu foquei mais no samba e, para isso, eu fui para o Rio e fiz um estudo de caso com a Companhia Arquitetura do Movimento, da coreógrafa carioca Andrea Jabor. 

Quando eu estava no Mestrado, ela tinha terminado o último espetáculo sobre o samba. 

Ela fez uma trilogia, começando a pesquisa em 2007. Desde o início em 1999, a Companhia pesquisa a relação da dança contemporânea com outras linguagens: literatura, tecnologia e artes plásticas. Em 2007, Andrea resolve pesquisar o samba, vai a fundo e acaba produzindo três espetáculos - uma Trilogia do Samba, como ela chama. 

VOCÊ TEM UMA RELAÇÃO MUITO ESTREITA COM O SAMBA CARIOCA. DE ONDE VEM ISSO?

O Samba no quintal da avó
Vem do quintal de minha avó (risos). Como eu falo naquele texto, vem "do quintal das mangueiras, com uma toalha enrolada na haste da vassoura e uma coroa dourada na cabeça”. Vem desde sempre. Isso foi só aumentando... Vem das escolas de samba que nunca fui... Imaginava a minha comissão de frente... A comissão de frente e as passagens dos casais de mestre-sala e porta-bandeira sempre foram momentos que me interessaram nas escolas de samba! 

Eu tenho essa paixão pelo samba de fato, mas eu nunca tinha levado o samba para minha área de pesquisa. Eu sentia que devia isso a ele, por conta de tanto respeito, de tanta admiração que eu sinto, mas que sempre ficava na zona do entretenimento e da contemplação, de ouvir, de dançar... e foi quando minha mãe - sempre minha mãe (risos) - chamou minha atenção para isso. 

O samba é uma coisa que eu gosto tanto que, às vezes, tenho medo de tocar nisso, de não fazer alguma coisa que esteja ao alcance dele. 

Por entre Modigliani e outras intimidades
No Mestrado, minha pesquisa foi essa. Mas a intenção, quando eu cheguei no mestrado, era fazer uma relação da Dança Contemporânea com as Artes Plásticas, resquícios dos dois anos em Artes Visuais que eu tinha feito na Universidade. Tanto que, o que eu produzi dentro do Mestrado, coreograficamente, tem a ver com essa relação com as Artes Plásticas. Escolhi o pintor italiano Amedeo Modigliani para desenvolver o trabalho, mas no início do segundo ano do Mestrado minha mãe questiona eu não fazer sobre o samba. Eu disse "não, já escolhi o tema".


Tempo depois eu estava ouvindo um samba no meu quarto e alguma coisa disse assim: "Minha filha, fale sobre isso!". E aí eu cheguei descaradamente para o meu orientador, o Professor Dr. Daniel Tércio, e disse a ele que tinha mudado o tema (risos). Ele tomou um susto, mas se interessou, porque ele conhece muita coisa sobre a dança no Brasil e, por acaso, ele tinha escrito um artigo falando sobre a relação entre a dança no Brasil e em Portugal, e, mais por acaso ainda, ele tocou no nome de Andrea Jabor, a coreógrafa sobre a qual eu pesquisei. O susto, por parte dele, foi porque estava tudo definido. 

RENATA, DANÇAR FOI SEU PRIMEIRO SONHO? VIVER EM FUNÇÃO DA DANÇA FOI SEU PRIMEIRO SONHO?

No espetáculo canto para ela
Dançar sempre foi um entretenimento para mim. Pensava em ser Professora de Português. Comecei a fazer aula de balé quando eu era pequena, acho que eu tinha onze anos - fiz dois meses e enjoei. Só retornei na adolescência. Mas, antes disso, eu jogava bola, eu gostava muito de jogar futsal. É... joguei durante todo o ensino fundamental e médio. Também não pensava nisso como carreira, mas eu costumo dizer que levei o futebol primeiro a sério do que a dança. A dança veio já no finzinho do futsal, já no ensino médio. 


ENTÃO A DANÇA É RECENTE

No início com a Dança do Ventre
Comecei com 17 anos, com a Dança do Ventre. Com isso, temos aqui 16 anos de dança. Fiz aula no Cultart, na Academia Sergipana de Balé e muitas oficinas e workshops, além de residências lá em Portugal.

Outra paixão era escrever. Eu escrevia muito. E sempre fui muito apaixonada por português, pela língua portuguesa. Fiz um curso de inglês paralelo à escola. Meu primeiro vestibular foi para letras - português/inglês -, e o inglês veio mais porque eu já tinha feito o curso, mas o que me interessava mesmo era a língua portuguesa. Eu escrevia diários, mas escrevia em inglês por conta da privacidade (risos). Depois eu começo a rabiscar desenhos e percebo que meus desenhos se parecem, lembram um pouco a forma de minha mãe desenhar. Aí eu começo a pintar em camisa, vem o artesanato e tudo começa a se misturar. A partir dos 17 anos essas coisas começam a ficar mais latentes e a se cruzar: desenho, artesanato, escrita, dança... 


QUAIS FORAM OU QUAIS SÃO SUAS REFERÊNCIAS NO MUNDO DA DANÇA?

Têm artistas que eu gosto muito. Anne Teresa De Keersmaeker, coreógrafa belga, tem um minimalismo e um rigor associados a emoção que gosto muito. E ainda tive a sorte dela ser a convidada para a primeira Bienal em Lisboa, “Artista na Cidade”. E como gosto das coincidências, além dela ser geminiana, fundou sua Companhia da dança Rosas em 1983, ano em que nasci (risos).

Gosto imensamente de Pina Bausch. Ela tem uma frase clássica em que ela diz que “o que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que movem as pessoas”. Ela se interessava muito pelas histórias, pelas falas de cada um. Isso é uma coisa interessante para a gente pensar a dança, e pensar em como fazer dança.

Dançando sob múltiplas influências
Minhas influências vão além dos coreógrafos, das pessoas que fazem dança. Estão ligadas a leituras, fascínios, e a artistas de outras linguagens: Amedeo Modigliani, artista plástico italiano. Me fascina o feminino na obra dele, os traços, a ausência do olho como nós conhecemos, mas com um olhar de muita expressividade; Clarice Lispector pela introspecção, pela doação do interno no escrito; Pierre Aderne, conheci mais recentemente lá em Lisboa, pela delicadeza, pela música… mora em Portugal há alguns anos, morou no Brasil outros tantos e nasceu em França. Nele corre a brasilidade, o samba e a nordestinidade. Chico que é o maior, por tudo, pela genialidade, pela poesia, pelo feminino, pela obra política, que foi por onde eu comecei, foi onde eu me apaixonei por ele. Bethânia, pelo gestual e, para mim, como intérprete ela é completa, principalmente por seu corpo em cena e pelas suas mãos, que são lindas. Antônio Nóbrega pela mistura, pelo corpo tão livre. Cesaria Evora, que tem a africanidade que eu gosto tanto. Tem mais, mas independentemente da linguagem, minhas influências na dança passam literatura, pelas artes plásticas, e isso vem para o meu corpo e para minha dança.

DE QUE MANEIRA A DANÇA PODE COLABORAR COM O DESENVOLVIMENTO DO NOSSO CORPO?

A dança pode ser escolhida para variadas finalidades, e penso que, por caminhos diferentes, ela consegue nos atingir de forma bastante positiva. Se eu pensar a dança na escola, por exemplo, vejo-a como um lugar que contribuiria para que os alunos e alunas tivessem uma relação mais próxima com seus corpos, e ampliar o pensamento sobre o corpo. Além de estimular outras sensibilidades, a forma de pensar e agir sobre nossa realidade.

A DANÇA PODE SER UM INSTRUMENTO DE AUTOCONHECIMENTO?

Em Fragmentos de Choros e canções
Pode. Sempre! Eu posso compartilhar uma história. Quando se fala em solos, os meus são sempre muito pessoais, têm sempre essa carga extremamente pessoal, diferente dos trabalhos que eu fiz em grupo.

Uma vez eu ouvi de uma pessoa, de uma coreógrafa, que o teatro, o espetáculo, não substitui, não é lugar para psicologia, para você deitar ali seus problemas e resolvê-los. Mas eu acho que em toda criação sua, você traz isso.

Em alguns trabalhos isso aparece mais do que em outros. Mas por exemplo, em músicas, quando você vai estudar a história do compositor, tem histórias pessoais ali: da filha que se prostituiu, de uma traição... E nos meus solos existe assumidamente essa carga pessoal, porque, como diz Frida Kahlo: "Pinto a mim mesmo porque sou o assunto que conheço melhor". Então, o que eu mais conheço é a minha história. Então, tem sim! Isso já causou problema para mim, por conta da exposição, porque você termina não só se expondo, mas também expondo uma realidade - familiar ou amorosa, por exemplo.

Em Fragmentos de Choros e Canções, onde eu leio um trecho de um diário, meu pai me questionou: "Para que falar, trazer isso, para que essa exposição?". E lá fui eu tentar explicar (risos).

DEIXE UMA ORIENTAÇÃO OU CONSELHO PARA QUEM PRETENDE VIVER DA DANÇA

Para se manter de arte é preciso persistência e investimento - investimento de tempo, investimento financeiro. Se a pessoa pretende ficar numa realidade como a de Sergipe, por exemplo, existem alguns caminhos a seguir, como dar aula em academia, fazer concurso para o Município ou Estado, ou tentar Mestrado e Doutorado para ensinar em Universidade.

Uma pergunta que sempre me fizeram é: 'Ah, e dança dá dinheiro'? Depende de quanto se quer ganhar, não é? Talvez não seja o caminho mais rápido para se ganhar muito dinheiro, mas eu não me vejo fazendo uma coisa que eu não goste para ser mais fácil de obter retorno financeiro. Como eu sempre estive em envolvimento com a arte de um modo geral, para mim foi natural essa escolha, além de estar dentro de uma realidade em que tive todo apoio para isso, sempre tive, isso foi muito importante. É sempre um risco, mas eu acho que vale a pena. Quem dá a cara para fazer isso é porque gosta muito e sinto que o retorno vem diariamente.

QUANTOS E QUAIS FORAM OS NÚMEROS CRIADOS POR VOCÊ?

Renata no espetáculo "Gesto"
Dentro do Rosa Negra Grupo de Dança foram Gesto, baseado num trecho do discurso de Charles Chaplin em seu filme O Grande Ditador, e Canto Para Ela, baseado num pedaço da obra musical feminina de Chico Buarque. Tiveram também trabalhos menores, que eram produzidos para os festivais. Então, a gente trabalhou em cima da Ópera do Malandro, O Circo Místico... E os trabalhos em solo foram Fragmentos de Choros e Canções, que foi meu primeiro trabalho de conclusão de curso, dentro da Universidade Federal de Sergipe. Mares, que foi um trabalho dentro da matéria Composição Coreográfica; Por Entre Modigliani e Outras Intimidades, que foi no âmbito do Mestrado e Cordão, o que apresentei no Sarau da Caixa D'água.

FALE SOBRE O GRUPO DE DANÇA ROSA NEGRA

Dirigi o grupo por seis anos e foi uma experiência fantástica. O grupo passou por algumas formações até a última, onde éramos em cinco. Finalizamos em 2011. Tínhamos por base a busca por uma linguagem contemporânea.

No início passamos por muitos questionamentos e buscas de caminhos para o que se queria falar. Eram trabalhos curtos, ainda muito novos sobre o pensamento sobre dança, mas a cada trabalho sentia que se crescia num processo de construção artesanal, chegando aos dois maiores trabalhos nossos já citados.

Os temas articulavam-se com necessidades, identificações do grupo. Criávamos muito coletivamente e toda a produção era dividida entre as intérpretes.

VOCÊ DEFINE O SAMBA COMO SUA PRINCIPAL ESPECIALIDADE, OU ELE É APENAS O CARRO-CHEFE?

Renata sambando no "SARAU DO CORETO", na cidade de Simão Dias (SE), em 23.04.2016


O foco, não. O foco é a dança contemporânea e os modos de fazê-la, os modos de pesquisá-la; o que é que eu posso encontrar de movimento e o que é que eu posso trazer de fora para fazer esse cruzamento. O samba é um deles. O samba termina tomando uma proporção maior dentro dessa história porque as pessoas sabem dessa relação forte que tenho com o samba. A escolha [do número para apresentar no Sarau] tem a ver com a própria praticidade do trabalho, porque os outros exigem um piso e um cenário que dentro da estrutura do Sarau não é possível. E achei que seria um trabalho que proporcionaria uma empatia com o público, por conta da probabilidade de identificação do público com as músicas, com o ritmo, com os elementos cênicos. Eu não deixaria de apresentar outros trabalhos, mas seria complicado devido à estrutura do lugar. Mas o samba vai sempre estar presente. Estarei sempre buscando coisas dentro dele para trazer para a cena.


Além disso, preciso enfatizar minha relação com o forró, que é desde o nascimento e passa pela infância. Meu samba vai para o Rio, volta para o Nordeste, vai para o samba rasteiro, para o samba de coco, além do samba urbano carioca. Existe um enredamento, um cruzamento, vários caminhos que se deslocam para esses lugares. Assim amplio minha relação com o samba e reforço esse retorno à origem, à minha infância… que está presente sempre na minha vida, em especial nos meus aniversários, que é pertíssimo do São João, que por mais que eu tente colocar samba também para tocar, não dá, a vez é de Seu Luiz e companhia! (risos)

Outra coisa que é importante para mim é a relação com a dança Afro, com a africanidade, meu interesse em entender melhor esse universo e a religiosidade no Brasil. Por esse meu interesse e respeito, fui convidada por Michelle Pereira, minha amiga, irmã, bailarina e pesquisadora da cultura Afro, a escrever sobre a mulher negra para um solo dela chamado “Yalodê”, que foi interpretado pela outra queridíssima e grande bailarina Cleanis Maria. E mais recentemente estamos trabalhando em um duo, onde o tema é a relação de Iemanjá com as filhas dela. Um universo que me atrai, me enche os olhos e do qual tenho me aproximado de alguma forma. A dança, artisticamente, é lindíssima, a movimentação, o gestual, a simbologia, a vestimenta…

QUAL ESTILO VOCÊ ACHOU MAIS DIFÍCIL E QUE EXIGIU MAIS CONCENTRAÇÃO DE SUA PARTE?

Balé. O fato de eu ter começado tarde a praticá-lo de verdade, contribuiu para isso. Existe também toda uma complexidade e definição de passos. Mas tem outras duas coisas muito fortes: a identificação mesmo e questões minhas relacionadas à dança.

Renata no espetáculo "Gesto"

A busca de movimento e de liberdade me inquietavam e me estimulavam, e o balé tem os passos já estabelecidos. Eu respeito muito o balé e sua história, mas tem a questão da identificação - identificação pessoal, de corpo, e da própria ideia de dança e o pensamento sobre dança, o que quero com ela enquanto pesquisadora e criadora. Mas sempre procurei fazer aulas, as quais me ajudaram em muitas outras coisas.




FALE UM POUCO DESSE PROJETO QUE VOCÊ ESTÁ DESENVOLVENDO NO COLÉGIO SILVIO ROMERO. QUEM É QUE PODE PARTICIPAR DO MESMO?

Ainda não começou. Está na parte burocrática ainda. A ideia desse projeto fortaleceu-se a partir da culminância da Marcha da Consciência Negra no ano passado. Eu percebi um interesse muito grande de alguns alunos que fizeram parte da coreografia que eu produzi. O Projeto Contínuo de Pesquisa e Criação em Dança tem o intuito de ampliar o conhecimento sobre dança, corpo, discutir isso... Não é só para fazer coreografias e repetir movimentos.

Em alguns eventos do Colégio pede-se dança ou dramatizações, mas como fazer algo mais elaborado, se não se tem um suporte técnico-teórico para tal? A percepção do ensino/estudo de Arte ainda é embrionária, estranha e tratada como algo desnecessário para alguns.

O caminho é longo para ir sobrepondo a ideia da “dancinha” ou “qualquer desenho” fortalecida há anos dentro das escolas. Mas nem tudo é trágico (risos), tem muita gente que quer, que quer aprimorar ou conhecer.

O Projeto Consciência Negra me deu uma luz, com as constantes perguntas: "Professora, vai continuar?,Vai continuar dando aula? O que é que a gente vai fazer depois daqui?"

Eu já tinha interesse nisso, mas precisava saber se eu teria aderência dos alunos. E tudo se fortaleceu.

"Estações"
Eu sugeri que acontecesse no contraturno dos interessados – e é por inscrição, por quem chegar primeiro, pois, à princípio, não pensei em estabelecer qualquer tipo de critério para ingresso dos alunos, mas será um Projeto que não terá retorno em nota. Quem quiser participar e se dedicar a isso, não terá nota; terá um aprendizado para vida, para o dia a dia, se aproximará do seu corpo, estimulará sensibilidade, pensamentos crítico-reflexivos e mais.

Associado à parte prática, haverá também leituras e vídeos para discussões, desenhos e escritos. Tudo isso refletindo-se nas criações, mas sem se preocupar somente com datas comemorativas. Estaremos produzindo durante o ano, mas, ao mesmo tempo, eu quero que seja uma coisa muito cuidadosa, para não fazemos pensando apenas em datas comemorativas. Vai ter que ser melhor planejado, e feito à medida que o grupo esteja produzindo e preparado para isso.

HÁ INTENÇÃO DE TORNAR SEU TRABALHO COM A DANÇA ACESSÍVEL A ALUNOS DE OUTRAS INSTITUÇÕES OU PARA O PÚBLICO EM GERAL QUE QUEIRA APRENDER?

Quando um Projeto dá certo, a intenção é sempre ampliá-lo. Por enquanto, o foco é o Sílvio Romero, esperar começar e ver como as coisas se encaminharão. Torço muito para que dê certo e a ampliação é algo que naturalmente virá, caso tudo corra bem.

FALE UM POUCO DE SUA EXPERIÊNCIA COMO PROFESSORA DE DANÇA.

Bom, eu sempre fui professora da prática de dança, desde a Universidade, quando comecei no Projeto Laborarte, da Secretária Municipal de Educação. Mas é uma experiência que eu estou gostando muito. São muitas turmas - eu acho que isso é um problema -, [aula de] Arte é apenas uma vez na semana, nós temos 25 turmas... isso é um complicador porque não se consegue conhecer os alunos, estar mais perto deles, entende?

Interessa-me ouvi-los mais, questionar mais e fazer com que eles respondam também. São mais de setecentos alunos! Como é que eu vou chamá-los pelos nomes? Como é que eu posso conhecê-los? Isso me angustia, mas a atividade em sala de aula é desafiante e sempre enriquecedora para mim, pois acabo aprendo muito com eles também.

Historicamente, a prática sempre prevaleceu. Mas esta deve estar associada à Teoria. Você aprende a pintar, você aprende uma técnica. Mas falar de artistas, de produção, de vanguarda, discutir estética e o papel da Arte, sua existência em diálogo sempre com a construção das sociedades só com o conteúdo.

É um desafio diário. Causou estranhamento quando eu e quando Marcelo, que é o outro professor de Arte, chegamos com notas, passando provas e a ocorrência de algumas reprovações. Foi muito estranho tudo isso. Foi desenvolvida a ideia de Arte como uma matéria tola e de fácil aprovação. É preciso tempo para irem digerindo tudo isso. Mas é uma delícia estar em sala de aula.

É um trabalho que nunca é monótono, porque a cada sala que você entra encontra uma realidade muito diferente. As salas começam a ter características próprias, e você tem que aprender a lidar com cada uma delas o tempo todo. É preciso ser muito flexível! Dá muito trabalho, é muita coisa para corrigir, você tem que estar o tempo todo estudando para produzir para eles, mas é muito bom e muito divertido também.

QUAIS SÃO SEUS SONHOS EM RELAÇÃO À DANÇA?

Mais da performance de Renata no "Sarau do Coreto"

Eu tenho vontade de produzir muito em dança, de ter uma coisa relacionada à minha paixão, que é criação, coreografar. O envolvimento na escola me deixou muito mais pulsante em relação a isso, fazendo com que eu tirasse o foco um pouco de mim para me dedicar muito mais a eles, pensando além, e sugerir o projeto.

Então, eu posso dizer que um dos meus sonhos é que esse Projeto aconteça e funcione. Além de concluir meu Doutorado.

Conciliar a rotina do trabalho e criar uma logística para estudar, tanto para as aulas quanto para a tese, não é simples.

Então, esses são dois grandes focos, ou sonhos meus hoje em dia. Eu penso no que está mais próximo, que é o Doutorado e esse Projeto.

RENATA, POR QUE VOCÊ VEIO PARA LAGARTO?

Bom, eu nunca tinha vindo aqui. Eu estava em Lisboa quando as convocações começaram a acontecer, e Lagarto foi uma convocação por convite, já que minha DR de origem não é essa.

A partir do dia em que minhas aulas do Doutorado acabaram, já poderia voltar. Isso foi em julho de 2015. A primeira convocação foi para Lagarto, e arrisquei. Só sabia que era uma cidade mais desenvolvida...

Acho que eu fiz uma boa escolha (muitos risos). Eu tenho gostado muito daqui, da forma como as pessoas têm me acolhido, as pessoas que eu encontro no caminho, seja no caminho da padaria, da escola, no Sarau... Essa questão humana é fundamental para mim, associada a trabalhar no que gosto. Posso dizer que tem valido à pena. Ficam mexendo comigo, porque a ponte-aérea agora é Lisboa-Lagarto (risos).

RENATA, FALE DO SEU LADO ESCRITORA

A escrita existe desde muito nova. Ela vem como uma necessidade. O sofrimento me ajuda muito a escrever, a criar - mais do que o estado de felicidade.

Não necessariamente o trabalho vai ser sobre sofrimento, mas o estado de felicidade para mim é mais contemplativo do que um momento de criação. Mas um trabalho alegre pode vir, inclusive, do sofrimento, do meu estado de sofrimento. E a escrita veio desde sempre, desde a época da casa do meu avô, em que eu convivia com ele, escrevia meus poemas sobre amor – que hoje eu não consigo nem ler de novo (risos).

Cinza - alaranjado

A graça sem graça
Sem riso para rir
É questão de ir
sem graça sem riso
É questão de ficar
sem nada
Cheio de vazio
Sem nada de querer
Sem nada mais que ocupe
Sem nada a mais de pensar
Sem ninguém para amar
Cheio de perdão
Sem nada de revolta
Sem mais nada que pergunte
Sem nada a mais de resposta
Sem ninguém para pedir
Sem sentido
Cheio de desejo
Sem alcance
Cheio de esperança
Sem choro
Cheio de soluço
Sem ar
Cheio de voo

             20/08/13

MAS VOCÊ CHEGOU A PUBLICAR ALGUMA COISA?

Não, nunca! Já chegaram a me pedir para eu fazer por encomenda. Michelle é quem mais me provoca. Ela sugeriu que eu fizesse uma página no facebook para isso. Eu não queria de jeito nenhum. A minha pesquisa, toda a minha formação é em dança, que é onde eu me sinto mais segura. Então, o desenho para mim e a escrita são, na verdade, ousadias. Eu não tinha coragem de expor isso e ela, para me driblar, me encomendava e, então, “passava a ser” dela, e se aproveitava disso para pôr na página dela (risos).

O trabalho mais recente que ela me encomendou foi falar sobre a mulher negra, sobre ser uma mulher negra. É um texto que ela usa na dança (o nome do trabalho é Yalodê).



Yalodê 

Vim no balanço do mar 
Ao som de sua correnteza 
E pelas suas mãos destemidas. 
Vim no balanço do mar que embalou meu choro 
Vim no balanço do mar que ouviu minha dor 
Vim porque tenho braço forte 
Mais valia que qualquer choro ou qualquer dor
No meu corpo veio o que corrente não prende 
E o que chibata não corta 
No meu corpo está a voz do meu canto 
No meu corpo está o ritmo da minha música 
No meu corpo está a riqueza da minha dança 
No meu corpo veio o que corrente não prende 
E o que chibata não corta 

Sou coberta pelo manto negro 
Aquele que envolve o seio com o leite que foi alimento para o filho que não era meu 
Aquele que carrega histórias ancestrais que ninou as noites do filho que não era meu 
Aquele que acolheu como se fosse meu o filho que não meu 

Minha cor não é exótica, é a cor da minha cor 
Meu corpo não é objeto, é meu e para mim 
Minha beleza começa por dentro 
Meus traços são do meu povo 
E cada canto de mim tem a alegria que dele herdei 

Cada outro canto 
É canto de lágrima. 
Do olhar de canto cultivado pelo tempo 
Do silêncio imposto na voz deixada em qualquer canto 
Do encanto do gesto de amor proibido 
Cada outro canto é lágrima de desencanto 

Minhas mãos são inquietas para o trabalho 
Cuidadosas para o alimento 
Ternas para o amor 
Corajosas para buscar caminhos 
E firmes para negar. 

Quente como o fogo 
Que queima, aquece e ilumina 
Fresca como a água 
Que alivia, hidrata e inunda 
Forte como madeira 
Guerreira. 
Frágil como flor 
Sensível. 

Eu sou negra 
Meu sangue é de gente 
E minha cabeça é erguida. 

05/08/13

COMO É QUE VOCÊ ESCOLHE O REPERTÓRIO QUE SERÁ USADO EM DETERMINADO NÚMERO DE DANÇA?

Ah, isso tem que estar ligado ao conceito do trabalho, não é por preferência. Assim como a movimentação.

Tem um solo meu que não tem música. Eu comecei a fazer os laboratórios, as experimentações no estúdio, e ele foi se formando, acontecendo, e quando já estava fechado para ser apresentado eu me dei conta que não tinha trilha sonora. Foi uma experiência interessante dentro da área de pesquisa, dentro da estética contemporânea, não ter essa dependência da música para se dançar.

Foi interessante porque eu percebi que a música não me fez falta naquele momento - isso não quer dizer que todo trabalho meu agora venha a ser sem música. As necessidades vão surgindo.

COMO VOCÊ DECIDIU LEVAR AQUELAS MÚSICAS PARA O SARAU DA CAIXA D'ÁGUA?

As músicas já estavam dentro do trabalho, já faziam parte, não foi uma coisa "para" o Sarau. O trabalho "Cordão" envolve aquelas músicas. Quando eu conversei com Thalia (uma das organizadoras do Sarau da Caixa D'água) sobre o projeto, ela me disse que eu poderia me apresentar por quanto tempo eu quisesse - dez minutos, vinte minutos... até quarenta. Eu disse que meu trabalho tinha vinte minutos. "Cordão" traz aquelas músicas mais o texto.

Uso as músicas: Preciso me encontrar (Candeia), Samba da Benção (Baden Powel e Vinícius de Moraes), O Samba de Minha Terra (Dorival Caymmi), Batuque na Cozinha (João da Bahiana), Guerreira (João Nogueira e Paulo César Pinheiro), Morena Rosa (Dorival Caymmi). No início, na capela, a voz é de minha mãe.

Então, esse ambiente artístico, musical, literário e que envolve a escrita vem do ambiente de casa - eu escrevi muito, muito mesmo na mesa do meu avô, na biblioteca dele.

FALE DO MOMENTO EM QUE VOCÊ SE APRESENTOU NO SARAU DA CAIXA D’ÁGUA

Eu estava ansiosa, porque eu sabia que ia encarar um público eminentemente roqueiro. A banda que estava tocando antes de mim era de rock. Eu disse para mim: "meus Deus, está todo mundo de preto aqui, e eu vou entrar toda de branco dançando samba!". Eu estava bastante ansiosa com isso, preocupada, mas confesso que depois que eu entrei, subi ali no palco do Sarau, me senti extremamente à vontade. Aquele chão de cimento se transformou num palco de madeira flutuante – que é o piso específico que a gente tanto sonha para a dança, que deixa um espaço, uma folga entre o chão e a madeira. O público também estava à vontade, se chegou, assistiu... durante a apresentação eu consegui ouvir comentários de gente que estava perto de mim... (nesse momento eu lembrei a Renata que muita gente gritava: bonita!, linda! Tiveram até aqueles e aquelas mas afoitas que gritavam: gostosa! (risos e mais risos). Mas foi bom, foi uma delícia dançar ali. Eu estava preocupada com o espaço, com o som e com os fios – porque sempre tem bandas por trás. Mas tudo isso foi sublimado e foi ótimo!

E NO FINAL VOCÊ ESTAVA EMOCIONADA DEMAIS, NÃO É?

Foi, porque ali aconteceu uma sucessão de coisas. Primeiro aconteceu o espetáculo, o próprio "Cordão". Depois Karol, uma ex-aluna minha cantou uma coisa que foi escrita por mim e por ela, e que foi composta muito sem querer, na verdade. A gente conversa muito no WatsApp, e ela vez em quando manda um escrito curto. E nesse dia eu respondi dando continuidade ao trecho que ela tinha me enviado.

Ela, que gosta muito de cantar, colocou música e fez um sambinha “O Sal e o Doce”. Em seguida, outra ex-aluna, Heidy, fala um texto meu... E foi uma coisa atrás da outra... Um amigo meu tentou falar comigo e eu não conseguia: "olhe, não consigo falar agora!" (risos).

SUA MÃE ESTAVA ALI, NÃO ERA?

Minha mãe estava. Minha mãe é a típica mãe de bailarina. Minha mãe é muito mãe de bailarina - minha mãe e meu pai, na verdade. Meu pai carregava cenários com o carro dele. Uma vez fiz um cenário que eram 7 portas de madeira com rodinhas para um espetáculo. E era ele fazendo o transporte e dizendo: "Não me arrume mais isso, pelo amor de Deus! Você é doida!" (risos). E minha mãe com as roupas... com as costureiras... Ia para os espetáculos... Meu pai ia também, vestia camisa do grupo (muitos risos). Eles me apoiaram muito nisso. Sempre foram muito presentes na minha formação e na minha atuação como bailarina e como coreógrafa. Eles estiveram sempre muito presentes.


Agradecimento especial ao amigo Kiko Monteiro, por sua disposição em me acompanhar nesse desafio
Fotos: Eduardo Bastos
Fotos do arquivo particular da professora Renata Carvalho
Todas as poesias e todos os desenhos são de autoria de Renata Carvalho


quinta-feira, 28 de abril de 2016

OS PENITENTES DO POVOADO JENIPAPO



Eduardo Bastos 

Uma tradição de mais de 50 anos é resgatada por uma irmandade num dos povoados mais importante do município de Lagarto. Fomos lá conferir a história da criação e práticas desse grupo naquela comunidade




Penitentes rezam numa das casas da comunidade
Adriana Paixão e Mônica Barbosa são duas amigas nossas que residem no povoado Jenipapo, aqui em Lagarto. Dia 24 de fevereiro do corrente eu conversava com elas numa rede social, quando Adriana me perguntou se eu conhecia um grupo de penitentes que saem nas ruas daquele povoado no período da quaresma. Eu disse que não conhecia, e as duas me mostraram fotos. Eu afirmei que aquilo era interessante demais e, nessa mesma noite, e por coincidência, Adriana e Mônica fotografaram e filmaram os penitentes enquanto eles rezavam numa das casas do povoado.

Fiquei com aquele história na mente, as imagens e os vídeos no aparelho celular e, no dia seguinte, ao encontrar meu amigo Kiko Monteiro na câmara de vereadores de Lagarto, mostrei-lhe as imagens e sugeri que aquilo daria uma bela reportagem para o Portal Lagartense. Kiko, que trabalha no site, concordou comigo na hora, e então voltei a manter contato com Adriana que, por sua vez, se encarregou de providenciar tudo que pudesse viabilizar nosso encontro com o "mediador" do grupo de Penitentes do povoado Jenipapo.

Dia 16 de março de 2016 eu, Kiko Monteiro, Benício Junior, Letícia Paz e Afonso Augusto fomos ao encontro dos Penitentes que enchem as noites dos jenipapenses com suas rezas, seus cânticos, sinos, e o som da matraca. (O amigo Afonso Augusto é, na atualidade, o principal agente cultural de nossa cidade. Mas ele é também, e acima de tudo, um graduado em História, um sujeito interessadíssimo nos fatos do passado e do presente, que tiveram por cenário a nossa cidade e município. Daí meu convite para que Afonso estivesse entre nós, testemunhando o que testemunharíamos àquela noite).

Alguns penitentes usam vestes roxas
Ao chegarmos ao povoado Jenipapo, fomos recebidos na antiga casa paroquial pelo "mediador" dos Penitentes e por nossas cicerones, Adriana e Mônica. Ao longo da entrevista, do papo informal, conseguimos colher informações importantes, relacionadas à origem do Penitentes, o número de integrante do grupo, critérios observados para admissão de novos participantes, detalhes dos rituais, situações e locais em que eles rezam e entoam seus cânticos, etc. Nessa conversa com o “mediador”, inúmeras outras indagações ficaram sem respostas – como a que pedia esclarecimento sobre o porquê do número de participantes do grupo ser sempre ímpar; nunca par. Também ficou sem resposta nosso desejo de saber qual a função da matraca no ritual daqueles Penitentes.

Após quarenta minutos de conversa com o "mediador" do grupo, nos demos por satisfeitos, nos dirigimos a um dos bancos da praça do povoado e ficamos ali sentados, papeando sobre o cenário cultural de Lagarto - sobre o Sarau da Caixa D'água e o Som na Praça -, e sobre Lampião, Maria Bonita e os cangaceiros (Kiko Monteiro é aficionado por esse tema e não ia perder a chance de nos falar sobre isso àquela noite). Ali, na praça, o som da missa não chegava a atrapalhar nossas conversas, e a lua passeava lentamente por sobre nossas cabeças, nos vigiando por entre copas de árvores altas e frondosas, até que o horário de entrarmos em ação chegasse.

Agora os relógios dos celulares denunciavam já passar das 22h. Chegara o instante de sairmos à procura dos Penitentes nas ruas do povoado Jenipapo. Ninguém sabe por antecipação em que beco, praça, rua, viela ou encruzilhada o grupo vai se reunir. Cada um vai surgir do nada no meio da noite, já vestido com sua túnica e com a cabeça coberta por capuz, pois um integrante jamais pode saber da identidade do outro; apenas o "mediador" é quem pode saber de tudo.

O grupo reza em frente a uma residência
Rondamos pelas ruas desertas do povoado atentos a tudo. De repente, Letícia grita dentro do carro que os Penitentes estão indo por ali. Freada brusca. Manobrando com agilidade, Afonso emparelha o carro ao lado do grupo que segue em fila. Todos param diante de uma residência. Preparo a câmera fotográfica e passo-a para que Kiko faça aquele registro. A rua acanhada se enche de curiosos, os flashes quebram a escuridão por milésimos de segundos, o grupo termina a reza e toma o rumo da residência logo ali em frente. Eu e Kiko seguimos logo atrás do grupo, entramos na casa em seguida, pedimos licença a todos, atravessamos a sala por entre os Penitentes e nos postamos em local estratégico. O grupo inicia as rezas e cânticos, e alguns olham assustados para nós por entre os buracos dos capuzes. Preparo mas uma vez a câmera e volto a entregá-la a Kiko, que a empunha com firmeza e abre caminho por entre os Penitentes para garantir fotos fantásticas!

Origem e resgate de uma tradição

O grupo de Penitentes do povoado Jenipapo surgiu na década de 1950 e tinha como lideranças mediadores como Pedrinho, Seu Dionísio e Raimundo de Honório. Os grupos que tinham à frente essas pessoas eram chamados de cordões (Cordões são grupos de penitentes. No passado, haviam três grupos no Jenipapo: o de seu Dionísio, o de seu Pedrinho e o de Raimundo. O quarto “cordão” é constituído pelos penitentes que resgataram a tradição nesse ano de 2016). Há oito anos faleceu seu Raimundo, líder do terceiro cordão, e ai os penitentes ficaram esquecidos na comunidade. O mediador atual, junto com outros irmãos de movimentos da Igreja Católica, resolveram resgatar esse grupo, e o denominaram Senhor do Bomfim, em homenagem ao primeiro padroeiro da comunidade.

O número de integrantes do grupo é sempre ímpar
As atividades do grupo atual tiveram início na quarta-feira de cinzas desse ano de 2016, com visitas a comunidades como as de povoados como Brasília, Quirino, Pista do Araçá e Urubu Grande. O grupo também reza em casas de famílias da comunidade, sempre que para isso são convidados. Os Penitentes rezam ainda em grutas, cruzeiros e também em cemitérios. Eles andam carregando um cipó caboclo com a finalidade única de manter a tradição e, enquanto grupo de lamentações, invoca as almas através de orações e cantos.


Na atualidade, os penitentes do povoado Jenipapo contam com apenas um remanescente dos grupos fundadores. Entre os participantes atuais, encontram-se adolescentes, jovens e adultos. O grupo atual tem 23 membros, que entoam cantos próprios e católicos – já que os penitentes estão vinculados ao catolicismo.

Um grupo que preza o anonimato

As penitencias são feitas exclusivamente na quaresma, no dia da hora – último dia da quaresma - e ainda no dia de finados. O uso do capuz é a forma encontrada pelos penitentes para manter no anonimato cada um dos participantes – a identidade individual é um segredo, um mistério respeitado a todo custo pelos membros do grupo.

Os Penitentes dizem que se transformam enquanto oram
O mediador diz que os penitentes acreditam que, quando estão fazendo suas orações iniciais, todos se transformam. É como se uma força superior, inexplicável e divina viesse ao encontro de todos, fazendo os penitentes se sentirem acompanhados de almas e espíritos do outro lado do mundo. Eles acreditam até que pessoas que no passado lideraram os penitentes se fazem presentes para ajudar e orientar o grupo. Há pessoas do grupo que costumam dizer que chegam até mesmo a ver seres e almas do passado ao redor. O mediador confessa que, em alguns momentos, em algumas casas, já sentiu forças maiores agirem, e até pessoas chorarem do inicio ao fim, não sabendo se isso é motivado pela emoção ou pela ação de seres superiores que estão por ali naquele instante.

Locais em que os Penitentes se fazem presentes

Os Penitentes rezam nas casas quando são convidados
Os penitentes costumam ser convidados para rezar nas casas. Os únicos locais que eles vão de livre e espontânea vontade são nas grutas e cemitérios. Eles também têm alguns pontos geográficos em que rezam, como por exemplo em encruzilhadas e locais em que aconteceram acidentes e tem uma cruz, pois eles sentem que ali tem uma alma que está necessitando de oração, de um aconchego maior. As rezas em encruzilhadas se justificam ainda pelo fato de caminhos se cruzarem em formato de cruz. Para a irmandade dos penitentes do Senhor do Bomfim, a cruz tem um significado maior, que é o “T” - “T” de tudo e de todos. Para a irmandade, Jesus Cristo está acima de tudo e de todos. Segundo o mediador, não existe e nunca existirá um ser superior a Ele. Para os penitentes do Jenipapo, a cruz simboliza o sacrifício e a redenção. Muitos morreram na cruz por conta dos crimes cometidos, mas foi também na cruz que Jesus morreu para a redenção de cada um de nós.

Os penitentes rezam também em grutas por entenderem que foi em uma delas que Cristo nasceu, e por serem locais reservados, em que eles se concentram exclusivamente para fazer orações. Recentemente, os penitentes do povoado Jenipapo estiveram numa gruta localizada no povoado de nome Quirino, e o ritual aconteceu à noite, pois as únicas ocasiões que justificam eles se reunir no período diurno é em dia de procissão do Senhor Morto e nos dias do encontro de Nossa Senhora das Dores com o Senhor dos Passos.


Quem pode participar da Irmandade

As vestes dos Penitentes obedecem a um padrão
Qualquer pessoa pode participar do grupo dos penitentes, mas antes precisa assumir o compromisso de não revelar os nomes de seus membros. Precisa também cumprir com os rituais - previstos no estatuto que rege todas as atividades do grupo. Qualquer homem ou mulher pode participar da irmandade dos penitentes, desde que tenha mais de quatorze anos de idade. Cada participante deverá usar vestes brancas e carapuças na cabeça, mas são abertas exceções para o roxo - algumas pessoas usam túnicas roxas. Não poderá participar do grupo aquele que não tiver testemunho da fé cristã. O mediador esclareceu que a prostituta e o homossexual também podem fazer parte do grupo, uma vez que essas pessoas não são diferentes; apenas fizeram opções diferentes na vida. Mas, como cristãos, e diante de Deus, elas são iguais e têm os mesmos direitos - se elas tiverem a fé cristã serão aceitas normalmente no grupo.

Apenas números ímpares

O capuz nunca pode ser tirado em público
Outras normas observadas no grupo dos penitentes é a de que um participante nunca deve revelar seu nome a terceiros, assim como jamais pode dizer o local da residência onde os penitentes irão rezar - os que tiverem a curiosidade de saber, que espere. Ninguém sabe por onde nem de onde os penitentes irão surgir, ou quando irão “desaparecer”. O Grupo ganha as ruas por volta das 9h ou 10h, com cada membro surgindo já vestindo sua túnica e capuz, e depois “desaparece”, “some” após ter cumprido os rituais. Sempre que o grupo percebe que há pessoas curiosas que já identificaram mais ou menos de onde os penitentes estão saindo, o local de origem é mudado. Nunca um membro do grupo pode tirar a túnica ou o capuz em público - exceção para uma situação em que a polícia esteja realizando uma abordagem. Diante de uma situação como essa, será estabelecido um diálogo, na tentativa de que se permita que as retiradas do capuz e da túnica se deem em local reservado. Se, em algum momento, um dos participantes vier a se identificar, revelando que é um penitente, que faz parte da irmandade, ele estará irremediavelmente fora do grupo, uma vez que estará quebrando uma norma. Um componente do grupo dos penitentes terá, finalmente, que observar as leis, normas e rituais do grupo - há alguns rituais, orações e oferecimentos que quem está participando tem que respeitar.

Um dia inteiro de jejum


Os Penitentes participam das procissões
Os Penitentes do Senhor do Senhor do Bomfim do povoado Jenipapo observam um dia de jejum durante a Semana Santa. Cada um dos seus membros tira um dia para fazer jejum e orar. Um Penitente só poderá deixar o grupo depois de transcorridos sete anos desde seu ingresso. Um indivíduo, ao ingressar na irmandade e se tornar um penitente, assina um documento e assume o compromisso de permanecer no grupo durante sete anos, só podendo se afastar em caso de viagem, de morte, ou de descumprimento das normas - nesse caso, marca-se uma reunião para analisar o ocorrido e submetê-lo à votação, para se saber se o infrator deve, ou não, permanecer na irmandade.

Outras normas observadas pelos penitentes são a de acompanhar a procissão do Senhor Morto e a de ajudar o pároco da igreja quando forem convocados - mesmo nessa situação, não é permitido se revelar as identidades dos penitentes. Naturalmente, cada penitente já participa dos movimentos da Igreja, mas também ai ninguém sabe quem é quem.

O ingresso no grupo é uma decisão pessoal

O cipó caboclo é um componente da tradição
Não há arregimentação de pessoas para o grupo dos penitentes. Aquele ou aquela que deseja participar procura o grupo e manifesta seu desejo. Ao ingressar na irmandade, o indivíduo passa então a ter ciência das normas que a regem. De três em três meses há uma reunião para que seja possível aprender novos cantos e receber (se houver) novos integrantes do grupo. No passado, o número de participantes do grupo dos penitentes era bem maior - e sempre impar; nunca par. O grupo também possui uma identidade própria, mas também pesquisa a história dos três “cordões” anteriores.

As vestes dos penitentes do Jenipapo obedecem a um padrão copiado do antigo grupo, e não são fruto de investimentos individuas; são doações. Há pelo menos 05 pessoas na comunidade do Jenipapo que não participam do grupo, mas que o ajudam moral e financeiramente. Sempre que os penitentes precisam de algo recorrem a tais pessoas, e elas então veem em socorro. Quando a veste de um penitente não oferece mais condição de uso, recorre-se aos doadores - mesmo que o penitente possua condições financeira para adquirir uma nova.

O mediador acredita que o grupo de Penitentes nasceu por iniciativa de um rezador do Jenipapo que tinha por nome Dionísio e que, à época, atendia pessoas da comunidade que apresentavam problemas de saúde - muitos deixaram testemunhos confirmando que tinham alcançado a cura graças às rezas de seu Dionísio.

Oração “forte”

O branco das vestes dos Penitentes representa a plenitude
A seleção das rezas pelos Penitentes se dá levando-se em consideração as mais antigas, àquelas que mais tocam no emocional das pessoas. Segundo o mediador, têm orações que podem ser consideradas fortes, a exemplo do Pai Nosso - que, nas palavras do mediador, é uma reza poderosa e muito superior às outras. O mediador declara ainda que há outras rezas que tocam os indivíduos nos momentos de orações e cantos - nessas horas, o lado emocional e espiritual das pessoas balança. A maioria das rezas foi tirada do catolicismo antigo, e outras foram criadas pelos próprios integrantes do grupo.

Influências

O mediador esclarece que os penitentes são influenciados pelo catolicismo, não obstante a Igreja Católica não reconhecer o grupo como parte de um movimento. Mas a Igreja o respeita, e a paróquia do Jenipapo, inclusive, dá apoio. O exemplo maior disso foi o fato de o pároco daquela comunidade se mostrar por demais receptivo quando o grupo o procurou para expor a ideia de resgatar essa tradição, que havia sido interrompida há oito anos. O mediador deixa claro que, independente do sim ou do não do pároco, o grupo acabaria sendo formado, e diz ainda que, apesar de os penitentes ajudarem em atividades da Igreja, eles não vivem à sua mercê, não dependem dela, nem das ordens nem das orientações do padre para existir.
Os penitentes são influenciados pelo catolicismo

O pároco do povoado Jenipapo não sabe e jamais saberá quem são os penitentes. Ele pode até desconfiar quem são os integrantes do grupo, mas o mediador diz que jamais chegará até o padre para revelar que é um penitente, pois, se assim o fizesse, estaria revelando um dos segredos mais respeitados pela irmandade.

Todo contato da sociedade com os penitentes é feito através do mediador. Sempre que alguém manifesta interesse em ajudar o grupo, é por meio do mediador que a doação se realiza - o mediador é também o porta-voz do grupo mas, em nenhum momento, se coloca diante da sociedade como penitente. As doações ao grupo podem ser feitas em espécie ou gêneros alimentícios - que se transformam em cestas básicas e são distribuídas pelos agentes de saúde em comunidades carentes durante a quaresma, em nome dos penitentes.

Sete estações, sete dores

O grupo reza em sete estações
Os Penitentes rezam em dias de finados e na semana santa como forma de refletir sobre suas vidas, e isso também os leva a retratar a história de Jesus Cristo, do nascimento ao seu sofrimento e crucificação. O grupo reza em sete estações para representar as sete dores de Jesus Cristo – sempre lembrando que os penitentes só rezam em estações de números impares, e normalmente até o horário de meia noite (não obstante nossa insistência em saber porque aquele grupo de penitentes evita a todo custo os números pares, nossas indagações ficaram mesmo sem respostas).

Uma história a registrar

Quando o ritual do grupo chagou ao fim àquela noite, naquela residência do povoado Jenipapo, quem carregava a cruz de madeira tomou a dianteira, saiu na frente, e, um por um, os Penitentes foram deixando a casa andando de costas. O matraqueador foi o último a sair e nos demos também por satisfeitos. Já era tarde da noite e teríamos que tomar o caminho de volta para que Benício Junior produzisse sua matéria para o Site Lagartense.

Nessa noite, eu também precisava deitar minha cabeça no travesseiro para poder reviver e pensar em tudo que vi e ouvi, e assim produzir um texto em que pudesse contar do meu jeito a história interessante do resgate da tradição dos Penitentes do Senhor do Bonfim do povoado Jenipapo.


Fotos: Adriana Paixão, Mônica Barbosa, Kiko Monteiro
Agradecimentos: Adriana Paixão, Mônica Barbosa, Kiko Monteiro, Afonso Augusto, Letícia Paz e Benício Junior.